Referências musicais 

Cresci num ambiente rural e humilde, ouvindo músicas antigas. No som da nossa casa rodava essencialmente música caipira, sertaneja e jovem guarda. Eram muitas as fitas e discos de Tião carreiro e Pardinho, Lourenço e Lourival, Tonico e Tinoco, João Mineiro e Marciano, Amado Batista, Reginaldo Rossi, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Fernando Mendes e quase toda a Jovem Guarda. Meu pai sempre foi muito eclético para sua época. 

O rock apareceu na minha vida em 1998 ouvindo Titãs na abertura de uma novela - essa banda fez parte da minha história. A música É preciso saber viver na versão deles e com participação do Fat Family era tão boa que me fez ter curiosidade em conhecer a banda. Comecei a comprar fitas deles e depois CD’s, tive quase toda a discografia. Nessa época eu tinha recém aprendido a tocar violão, já tocava nos cultos da igreja da comunidade e comecei a comprar revistinhas com cifras que tivessem músicas dos Titãs, pois queria tocar as músicas deles também - além dos sertanejos, caipira e jovem guarda que já tocava. Junto com as revistas de cifras dos Titãs vieram cifras de outras bandas e cantores como Jota Quest, Vinny, O rappa, Charlie Brown Jr., etc., e de repente abriu-se esse novo universo pautado pelo rock nacional e internacional. O rock me ver fez logo de cara que o mundo da música era muito maior do que eu conhecia, ia muito além das duplas de músicas sertanejas. Depois disso transitei pela mpb, funk, R&B, heavy metal etc. Tudo isso influenciou demais meu aprendizado musical, essas músicas me forçaram a reaprender violão em termos de batidas, harmonias e me forçaram ao estudo de teoria musical. 

No fim de 1999 muitas grandes mudanças ocorreram, terminei meu ensino fundamental e minha família se mudou para Minas Gerais, terra natal da gente. Apesar de ter nascido no estado mineiro, não o conhecia, pois a migração para São Paulo ocorrera bem cedo. Morando em Novo Cruzeiro, não demorou muito para eu entrar em bandas profissionais de inúmeros estilos, já sendo remunerado para exercer a função de músico. Minhas influências continuaram a se expandir, o rock começou a fazer ainda mais parte da minha rotina, os amigos que tinha ajudaram muito nisso pois também vinham dessa vertente, só que a mais tempo que eu. Trocávamos fitas e CD’s, estávamos sempre aprendendo uma nova música dos Engenheiros do Hawaii, do Nenhum de Nós, do Legião Urbana, do Capital Inicial, Biquini Cavadão, etc. Nessa fase entraram em evidência para mim o Pink Floyd, Guns N' Roses, Scorpions, Foo Fighters, Metallica, U2, Aerosmith e outras bandas da mesma safra. Tínhamos uma banda de garagem paralela aos nossos trabalhos profissionais em outras bandas como freelancer, e nessa banda só o que tocávamos era rock. E isso era muito bom, sinto muitas saudades, tinha tanta verdade e sonhos naquilo... Foi nessa fase que escrevi os primeiros poemas minimamente estruturados que viriam a ser músicas mais tarde. Antes disso eu já havia escrito algumas coisas, mas de fato eram muito ruins. Apesar de verdadeiras não tinham muita lógica, minha compreensão de mundo era muito inocente e até meio boba, eu diria. Além disso faltava um mínimo de formação em literatura para poder escrever algo rítmico. Mas também é certo que consegui aproveitar muita coisa, reescrever e transformar em músicas igualmente boas. 

O início do milênio trouxe muita coisa boa para o Brasil no mainstream, as novelas ditavam o ritmo da música, estávamos sempre atentos ao que rolava nos programas de TV pois sabíamos que seriam os hits do verão, e aí, além dos clássicos, ficávamos inteirados em nível de repertório sobre o que ia ser ouvido durante o próximo ano. Além disso, assistíamos programas da TV aberta dedicadas a música - naquela época era mais comum se ver um programa que consistia em rolar videoclipes. Acredito que essa foi a época mais mágica na história das minhas referências, foi dali que vieram as principais delas que sigo até hoje, servem de régua para eu avaliar meu trabalho, é nelas que eu miro para saber o quanto ruim ou bom está uma música que eu produzi, em termos de mixagem, masterização ou qualquer outra etapa da produção musical. Mesmo na composição eu ainda penso “o que o The Edge faria”, “o que o Slash faria”, “como Ray Charles encaixaria essa voz”, “o que o Matt Sorum acharia dessa virada”, “o que a banda Nickelback acharia dessa melodia”, será que Dave Grohl aprovaria essa pegada? etc. No caminho, claro, inúmeras outras bandas menos lendárias foram entrando em meu radar. 

Tive inúmeras fases no meu aprendizado, várias dessas fases foram de reclusão em algum estilo bem definido. Tive um momento pop rock nacional, quando eu me fechei para o resto, rejeitando outros estilos, assumi uma identidade com base em somente um tipo de música. Tive um momento heavy metal, momento de meter a cara em teoria, treinar velocidade para poder sair fritando. Tive um momento mais descontraído, muito influenciado por bandas como Raimundos, Charlie Brown Jr, momento de se preocupar menos com técnica e mais com a vibe do momento. Tive um momento mais intelectual, fechado num mundo de músicas com um teor de letras  bastante denso e profundo em termos de temas e complexidade filosófica - bandas como Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós, Biquini Cavadão, fizeram minha cabeça. Mas também houve um momento que liguei o foda-se e comecei a tocar o que tinha vontade momento a momento, parei de tentar me encaixar, me moldar e cortar arestas para caber dentro de uma tribo, dentro de um recipiente, uma caixa. Senti que não me encaixo dentro disso ou daquilo, admiro e respeito quem segue essa tendência, mas definitivamente não é para mim. Sou bem mais eu assim, tocando o que a música pede que eu toque. Quando vou compor eu não me limito a esse ou aquele estilo - isso vale para as batidas, harmonias, instrumentos escolhidos. Primeiramente tenho uma história para contar – letra - depois a história vai me pedindo os instrumentos que melhor soam as notas que ressoam com a narrativa que melhor ilustra o enredo. 

Ainda penso assim, carrego essas ideias em todo o processo de produção, tenho tentado, cada vez mais, manter a cabeça aberta ao novo e ao velho, amo as misturas, pois amo as histórias. As histórias são complexas, não podem ser definidas, limitadas a um espectro visual e emocional. Às vezes precisamos ir além para conseguir pintar com notas um sentimento que não dá para falar e, nesse contexto, quem escolhe o pincel é a própria história que está sendo contada.

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